quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Resenha de The Reverend Shawn Amos Breaks It Down



                The Reverend Shawn Amos surgiu em 2014 com o promissor disco The Reverend Shawn Amos Loves You, mostrando um som com muita identidade, com um pé no blues e o outro dividido entre o rock e o gospel. Entre 2014 e 2018, além de ficar fazendo shows, Shawn Amos se manteve presente através da recomendadíssima série no youtube, Kitchen Table Blues, na qual todo domingo aparecia um vídeo novo com uma releitura de algum clássico do blues ou mesmo uma canção própria.  Pois bem, passados quatro anos, o mundo não é mais o mesmo, seja na esfera internacional ou mesmo na nacional, que, apesar da distância, não apresenta uma diferença muito grande em relação ao que provavelmente Amos observa no mundo e no seu próprio país, os Estados Unidos.

                No Brasil, passamos por um processo de radicalização política tão extrema que desencadeou um golpe de Estado, cujo resultado não foi apenas a destituição de um Chefe de Estado democraticamente eleito do país, mas sim despertou a misoginia, o ódio político, racial e social como bandeiras de segmentos sociais que vão além da experiência de classe e torna-se cada vez mais numeroso. Por pior que seja, esse processo de intolerância e combate à diferença não se viu resumido ao Brasil. Nos Estados Unidos, Barack Obama deu lugar à figura caricata de Donald Trump, que representa todo o conservadorismo estadunidense, congregando os piores valores nacionais, como a supremacia branca do KKK, cujo aspecto mais notável é o crescimento da violência policial contra a população negra, o imperialismo das grandes multinacionais ou a xenofobia. Portanto, The Reverend Shawn Amos Breaks It Down tem a função, inspirado pelos valores de Dr. Martin Luther King e da luta pelos direitos civis, de condensar toda essa guinada ao conservadorismo, à intolerância e funcionar como um disco-manifesto em direção à liberdade, ao amor ao próximo e, sobretudo, à esperança.

                Para conseguir entregar seu disco-manifesto, Amos com certeza teve que pensar na melhor forma. Musicalmente, The Reverend Shawn Amos Breaks It Down não é um álbum apenas de blues, mas cobre na verdade uma ampla gama de estilos que tem o ponto de partido no blues, mas que alcança o soul, gospel, R&B e muito rock. Essa combinação quase universal combina com a mensagem do disco que, atualmente, é quase universal. A faixa que dá início ao disco, “Moved”, é apenas Amos cantando com um acompanhamento lento na guitarra com alternâncias ocasionais de gaita. Apesar da calmaria, a letra conclama para o fim da apatia, o dilema entre levantar-se e lutar pelo que acredita ou apenas desistir e aceitar o peso. É o momento em que Shawn Amos lança a pergunta dylaniana: “How long can a man hold it in before he’s moved?”. Em seguida, Amos deixa gravado o marco do ano de 2017, destacando as novas maneiras de se travar uma guerra no século XXI, sem tanques ou aviões, apenas com a manipulação e controle de pensamento, trabalho feito muito bem pelo conglomerado midiático. Nesse momento, as realidades brasileira e estadunidense relatada por Amos quase se completam. Golpes de Estados dados sem uso de tanques ou intervenção militar como no passado, mas apenas pela manipulação midiática. No fim, ainda chama atenção para a disseminação de ódio: “Hate and fear ain't no vaccine / We've got to think about what our children's eyes have seen / In the year 20...20...17”.

                Na terceira faixa, Shawn Amos apela para a esperança de todos nós nos unirmos, apertarmos nossas mãos, como irmãos e irmãs, e conduzir nossa vida com amor e fé, que é mais fácil do que ódio e medo. Apesar de ser uma faixa que destoa, tematicamente, do restante do álbum, fica totalmente perdoada, pois é “Jean Genie”, a canção mais blues de David Bowie. Após o momento de descontração, o álbum alcança seu ponto máximo na seção chamada “Freedom Suite”, com três músicas emocionantes. Se no início do álbum, Amos destaca as mudanças na sociedade nesse novo século, com o recrudescimento do ódio e da intolerância, em Freedom Suite ele destaca o que, infelizmente, ainda permanece: a questão racial.

Na primeira faixa da seção, “Does My Life Matter”, Amos toma a liberdade artística para ampliar a letra de uma canção de Bukka White, acrescentando as novas tensões raciais a partir dos constantes casos de violência policial contra os jovens negros nos Estados Unidos, bem como a ascensão do movimento social “Black Lives Matter”. Então, Shawn Amos lança a pergunta:

“Am I paying for the sins
Of my color or my crime
Will shooting down my body
Really give you peace of mind

Does my life matter
Or does it matter less
Does my life matter
Or does it matter less”
               
                Ao mesmo tempo em que lança duras críticas, Shawn Amos prefere ainda acreditar no ser humano e a todo momento está chamando-nos a nos unirmos. É o que ele volta a pedir em “(We’ve Got To) Come Together”.  Não importa a tribo que você milite, sua ideologia política, convicção religiosa, sua opção sexual, pois, tal qual Dr. Martin Luther King, que se agarrou ao amor, nós temos que nos unir como uma família. “Ain’t Gonna Name Names” é outra faixa que serve para dar uma descontraída no ambiente. O disco chega ao fim com a cover de Nick Lowe “(What’s So Funny ‘Bout) Peace, Love and Understanding”, que não poderia ser um final melhor para um disco que a todo o momento está apelando para esses três sentimentos tão em falta nesse momento: paz, amor e entendimento.



quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Ben Harper e Charlie Musselwhite anunciam novo álbum, No Mercy In This Land



                Em 2013, Ben Harper se uniu com Charlie Musselwhite para gravarem um álbum juntos, o ótimo Get Up! (vencedor do Grammy para o Melhor Álbum de Blues, em 2013) A mistura de estilo de ambos contribuiu bastante para a qualidade do disco. Com o passar do tempo, o trabalho parecia ter sido uma benfazeja aventura musical na discografia de Ben Harper e Charlie Musselwhite. No entanto, se tem dois artistas que adoram trabalhos colaborativos são esses dois. A volta da parceria era tão somente uma questão de tempo e eis que em 2018 acabou de ser anunciado que Harper e Musselwhite estão lançando um novo disco juntos, chamado de No Mercy In This Land, que será lançado em 30 de março. Junto ao anúncio, a dupla divulgou a canção que dá título ao álbum.

                O disco, segundo comunicado oficial, no qual os artistas trocam elogios um ao outro, inclui as “histórias pessoais tanto de Ben Harper quanto de Charlie Musselwhite, além de acrescentar à sônica história da luta e sobrevivência dos americanos”. Confira abaixo a tracklist do álbum e a música “No Mercy In This Land”:

1. "When I Go"
2. "Bad Habits"
3. "Love And Trust"
4. "The Bottle Wins Again"
5. "Found The One"
6. "When Love Is Not Enough"
7. "Trust You To Dig My Grave"
8. "No Mercy In This Land"
9. "Movin' On"
10. "Nothing At All"


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Os indicados para o 39º Blues Music Awards





                Foram divulgados os indicados ao 39º Blues Music Awards, maior prêmio do blues, organizado pela Blues Foundation e que representa uma coleção dos artistas que mais se destacaram e representaram a diversidade e o espírito do blues. A cerimônia do 39th Annual Blues Music Awards acontecerá em 10 de Maio de 2018. Grande parte dos indicados consta também nas listas de melhores do ano do Filho do Blues, mas senti falta de alguns, como Eric Bibb, Rev. Sekou, Van Morrison, por exemplo. A novidade é a criação de mais dois prêmios: o artista do ano do Blues Rock e os melhores vocalistas do ano. Segue abaixo a lista completa:

39th Blues Music Award Nominees

Acoustic Album of the Year

Catfish Keith – Mississippi River Blues
Doug MacLeod – Break the Chain
Guy Davis & Fabrizio Poggi – Sonny & Brownie’s Last Train
Harrison Kennedy – Who U Tellin’?
Mitch Woods – Friends Along The Way
Rory Block – Keepin’ Outta Trouble

Acoustic Artist

Doug McLeod
Guy Davis
Harrison Kennedy
Rory Block
Taj Mahal

Album of the Year

Don Bryant – Don’t Give Up on Love
Monster Mike Welch and Mike Ledbetter – Right Place, Right Time
Rick Estrin & The Nightcats – Groovin’ In Greaseland
TajMo – TajMo
Wee Willie Walker & The Anthony Paule Soul Orchestra – After a While

Band of the Year

The Cash Box Kings
Monster Mike Welch and Mike Ledbetter
Nick Moss Band
North Mississippi Allstars
Rick Estrin & the Nightcats

 B.B. King Entertainer of the Year

Bobby Rush
Michael Ledbetter
Rick Estrin
Sugaray Rayford
Taj Mahal

Best Emerging Artist Album

Altered Five Blues Band – Charmed & Dangerous
Larkin Poe – Peach
Miss Freddye – Lady of the Blues
R.L. Boyce – Roll and Tumble
Southern Avenue – Southern Avenue
Tas Cru – Simmered & Stewed

Contemporary Blues Album of the Year

Beth Hart – Fire on the Floor
Corey Dennison Band – Night After Night
Ronnie Baker Brooks – Times Have Changed
Selwyn Birchwood – Pick Your Poison
TajMo – TajMo

Contemporary Blues Female Artist

Beth Hart
Karen Lovely
Samantha Fish
Shemekia Copeland
Vanessa Collier

Contemporary Blues Male Artist

Keb’ Mo’
Michael Ledbetter
Ronnie Baker Brooks
Selwyn Birchwood
Toronzo Cannon

 Historical Album of the Year

Jimmy Reed, Mr. Luck: The Complete Vee-Jay Singles – Craft Recordings
John Lee Hooker, King of the Boogie – Craft Recordings
Luther Allison, A Legend Never Dies – Ruf Records
The Paul deLay Band, Live at Notodden ’97 – Little Village Foundation
Various, American Epic: The Collection – Sony Legacy

Instrumental-Bass

Benny Turner
Bob Stroger
Larry Fulcher
Michael “Mudcat” Ward
Patrick Rynn

Instrumentalist-Drums

Jimi Bott
June Core
Kenny Smith
Tom Hambridge
Tony Braunagel

 Instrumentalist-Guitar

Anson Funderburgh
Chris Cain
Christoffer “Kid” Andersen
Monster Mike Welch
Ronnie Earl

Instrumentalist-Harmonica

Billy Branch
Dennis Gruenling
Jason Ricci
Kim Wilson
Rick Estrin

 Instrumentalist-Horn

Al Basile
Jimmy Carpenter
Nancy Wright
Trombone Shorty
Vanessa Collier

 Instrumentalist- Pinetop Perkins Piano Player

Anthony Geraci
Henry Gray
Jim Pugh
Mitch Woods
Victor Wainwright

 Instrumentalist – Vocals

Beth Hart
Don Bryant
John Németh
Michael Ledbetter
Sugaray Rayford
Wee Willie Walker

Koko Taylor Award (Traditional Blues Female)

Annika Chambers
Diunna Greenleaf
Janiva Magness
Miss Freddye
Ruthie Foster

Rock Blues Album of the Year

Kenny Wayne Shepherd Band – Lay It On Down
Mike Zito – Make Blues Not War
North Mississippi Allstars – Prayer for Peace
Savoy Brown – Witchy Feelin’
Walter Trout – We’re All In This Together

Rock Blues Artist

Eric Gales
Jason Ricci
Kenny Wayne Shepherd
Mike Zito
Walter Trout

Song of the Year

“The Blues Ain’t Going Nowhere” – written by Rick Estrin
“Don’t Give Up On Love” – written by Scott Bomar and Don Bryant
“Don’t Leave Me Here” – written by Kevin R. Moore, Taj Mahal, and Gary Nicholson
“Hate Take a Holiday” – written by Willie Walker, Anthony Paule, and Ernie Williams
“Prayer for Peace” – written by Luther Dickinson, Cody Dickinson, and Oteil Burbridge

Soul Blues Album of the Year

Don Bryant – Don’t Give Up on Love
Johnny Rawls – Waiting for the Train
Robert Cray & Hi Rhythm – Robert Cray & Hi Rhythm
Sugaray Rayford – The World That We Live In
Wee Willie Walker & The Anthony Paule Soul Orchestra – After a While

Soul Blues Female Artist

Bettye LaVette
Denise LaSalle
Mavis Staples
Trudy Lynn
Vaneese Thomas

Soul Blues Male Artist

Curtis Salgado
Don Bryant
Johnny Rawls
Sugaray Rayford
William Bell
Wee Willie Walker

  Traditional Blues Album of the Year

The Cash Box Kings – Royal Mint
Elvin Bishop’s Big Fun Trio – Elvin Bishop’s Big Fun Trio
Kim Wilson – Blues and Boogie Vol. 1
Monster Mike Welch and Mike Ledbetter – Right Place, Right Time
Rick Estrin & The Nightcats – Groovin’ In Greaseland
Various Artists – Howlin’ At Greaseland

Traditional Blues Female Artist

Annika Chambers
Diunna Greenleaf
Janiva Magness
Miss Freddye
Ruthie Foster

 Traditional Blues Male Artist

John Primer
Kim Wilson
Lurrie Bell
R.L. Boyce
Rick Estrin

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Melhores Álbuns de 2017 - Parte V



01. Guy Davis & Fabrizio Poggi - Sonny & Brownie's Last Train



 Guy Davis está entre os mais renomados cantores do blues da nova geração que surgiu para dar um novo fôlego ao gênero a partir da década de 90. Cantor versátil e bastante produtivo, Guy Davis conta com um respeitável catálogo, que abrange desde clássicos recentes, como You Don’t Know My Mind, de 1998, e Butt Naked Free, de 2000, até álbuns puramente conceituais, como o interessante The Adventures of Fishy Waters, de 2012. Para o seu novo projeto, Davis se juntou com o gaitista italiano Fabrizio Poggi, que tem também uma carreira tão longa quando a de Davis, no entanto não dispõe de tanta inserção no cenário mundial. Nesse projeto colaborativo, a dupla decide homenagear aqueles que provavelmente são a dupla mais lendária de toda a história do blues: Sonny Terry (1911-1986) e Brownie McGhee (1915-1996). Os dois se completavam de tal modo, Sonny na gaita e com seus “woooh” inconfundíveis, e Brownie com sua voz profunda e inabalável e a seu dedilhado no violão.  Essa dupla fez um dos sons mais incríveis do século XX, levando o blues rural e inclusive as técnicas do blues a novos patamares. Pois bem, é para homenagear esses dois grandes cantores da história do blues que juntou Guy Davis e Fabrizio Poggi no projeto intitulado Sonny & Brownie’s Last Train: A Look Back At Brownie McGhee and Sonny Terry, lançado esse no final de março. Ambos foram profundamente influenciados pelo estilo de gaita chamado Piedmont, do qual Sonny e Brownie foram precursores.

                Qualquer álbum que tem como intuito ser um tributo tem de enfrentar necessariamente dois dilemas: o primeiro se trata da escolha das faixas. O segundo dilema é como essas músicas vão ser executadas; se respeitando as versões originais ou reinventando-as e dando novas roupagens. Não existe uma fórmula pronta para álbuns assim, uns funcionam utilizando a primeira forma e outros funcionam melhor com a segunda abordagem.

No primeiro quesito, Sonny & Brownie’s Last Train é impecável. Sem dúvida, alcança as músicas mais famosas tocadas por Sonny e Brownie. É impossível ouvir em qualquer lugar faixas como “Louise, Louise”, “Hooray, These Women is Killing Me”, “Walk On”, por exemplo, e não lembrar deles. Todas estão lá, tocadas de forma emocionante. A gaita de Fabrizio dá acompanhamento incessante a todas as músicas, com texturas e técnicas sensacionais. Sonny ficaria orgulhoso. Junto com as clássicas da dupla, estão lá também versões de tradicionais do blues, que Sonny e Brownie também tocaram, como o hino “Take This Hammer”, e a icônica “Midnight Special”, ambas de uma das suas maiores inspirações, Ledbelly, e “Goin’ Down Slow” e “Baby, Please Don’t Go to New Orleans”, que qualquer bluesman que se preze em algum momento de sua carreira vai tocar essas músicas. Ainda sobre espaço para um música original de Guy Davis. A faixa que dá abertura ao disco é a original e Guy, “Sonny & Brownie’s Last Train”, que dá uma narração quase mítica à história de Sonny e Brownie, inclusive cheia dos whoops característicos de suas músicas. No final dessa faixa, uma mensagem de Guy e Fabrizio para a dupla: “Goodbye Sonny, Goodbye Brownie. See you on the other side”.

Bem, no caso de Sonny & Brownie’s Last Train, ouso dizer que só dá tão certo porque Guy Davis e Fabrizio Poggi gravam essas músicas de forma primitiva, crua, e, portanto, poderosa, da mesma forma que Sonny e Brownie fizeram no seu tempo. Até porque, segundo o próprio Guy, Brownie e Terry foram dois músicos cujo trabalho nunca será superado, muito menos melhorado”. Guy  encarna o papel de Brownie, enquanto Fabrizio se encarrega de representar a gaita de Sonny, o que não é uma tarefa nada fácil. O resultado do trabalho de Fabrizio sem dúvida é um dos pontos mais fortes do disco.

Pois bem, estamos em 2017. Nada mais vai alcançar a genialidade das gravações de Sonny Terry e Brownie McGhee do que esse projeto de Guy Davis e Fabrizio Poggi. O fato de ser um tributo sincero faz com que o álbum atinja todos os seus objetivos. É um álbum honesto, empolgante, histórico e apaixonante.






02. Walter Trout - We're All In This Together




We’re All In This Together torna-se assim, além de um favoritos para o melhor disco do ano, uma obra-prima do gênero blues-rock e coloca Walter Trout como seu maior representante e compositor. O mais legal é que essas posições de nada importam: ele consegue essa proeza num disco colaborativo em que os egos de cada um dos convidados – e o dele próprio – são deixados de lado e o que transparece é realmente a única coisa que importa de verdade: o amor pela música.






03. The Cash Box Kings - Royal Mint


Contando com regravações poderosíssimas e canções originais relevantes de quem vive o tempo presente, com críticas políticas e sociais, executadas por integrantes que conhecem profundamente os diferentes estilos do blues, The Cash Box Kings reafirmam a relevância do blues para a cena musical contemporânea. De fato, é como o próprio Oscar Wilson descreveu o disco: "um retorno à era dourada do blues.





04. Rev. Sekou - In Times Like These



In Times Like These é um álbum daqueles que realmente só podem ser feitos em tempos como estes. Cheio de tensão, revolta, paixão, dor, sentimento e, acima de tudo, esperança. Ainda de quebra, Rev. Sekou nos leva a uma visita à Igreja. Aqui cabe um adendo: independente da sua religião ou se não tem religião, mesmo assim, a música nos leva a significativas experiências espirituais. Rev. Sekou, apesar de pastor de uma Igreja pentecostal, sabe muito bem disso. Álbuns assim são os que curam a alma. Estamos precisando.






05. Mitch Woods - Friends Along The Way



Esse álbum é uma festa. Uma grande parte dos artistas que estão presentes nos 50 melhores discos do ano são amigos de Mitch Woods, o que os faz presente em Friends Along The Way. O nome não é lá muito original, mas funciona perfeitamente. Até quem já partiu se faz presente aqui, como John Lee Hooker e James Cotton. Mas a lista é bem mais extensa: Van Morrison, Charlie Musselwhite, Taj Mahal, Elvin Bishop, Joe Louis Walker, Maria Muldaur, Kenny Neal, John Hammond, dentre outros. Cada qual traz um pouco do seu estilo para somar ao piano de Mitch Woods, gerando um resultado sensacional. 






06. Van Morrison - Roll With The Punches



Van Morrison não é nenhum novato no mundo da música e já percorreu por vários caminhos da música americana, entre rock, folk, blues. Aos 72 anos, Morrison compôs mais cinco originais e gravou 10 covers para compor o ótimo Roll With The Punches focadas essencialmente no Chicago Blues, mas, pela sua trajetória, podemos perceber também nas músicas influências de diversos estilos, o que contribui ainda mais para o disco, sem perder a essência do blues. 






07. Eric Bibb - Migration Blues




É impossível não politizar um álbum que nos dias de hoje leve o nome de "Migration Blues". Eis o novo álbum do cantor e compositor Eric Bibb, que lança o novo disco em meio ao governo turbulento e xenófobo do novo presidente norte-americano, Donald Trump, com propostas cada vez mais mirabolantes para tratar da questão da imigração no país anglo-saxão, além do recrudescimento da tensão racial nos Estados Unidos e - por que não? - no mundo. "Migration Blues" é rico musicalmente, socialmente e politicamente. É, enfim, um grande registro de uma época confusa e tensa, que, no futuro, se constituirá num ótimo disco-manifesto dessa época.







08. Little Roger & The Houserockers - Good Rockin' House Party



Como o título sugere, é trilha sonora pra festa caseira, isso se você estiver interessado no blues clássico da década de 50, 60. Em Good Rockin' House Party, Little Roger e banda conseguem captar o espírito festivo do gênero, além de baladas para o momento da conversa ao pé do ouvido e de dançantes para se soltar no meio da sala. 







09. Kim Wilson - Blues and Boogie, Vol. 1



Kim Wilson é o líder da banda de blues The Fabulous Thunderbirds, mas agora saiu em um projeto solo de lançar volumes de clássicos de blues e boogie. Um projeto desse nas mãos de um dos grandes gaitistas de blues da atualidade não poderia dar errado. Uma ótima seleção de músicas, que passa por gênios da gaita como Little Walter, Sonny Boy Williamson e James Cotton, mas também abrange Elmore James, John Lee Hooker, dentre outros, faz com que a diversão seja garantida do início ao fim. 






10. Roger Waters - Is This the Life We Really Want?



Vários discos entre os dez melhores do ano são como manifestos políticos de seu tempo. E dentre todos, o primeiro disco de rock de Roger Waters em quase 25 anos é o mais amplo. Em Is This the Life We Really Want?, Roger Waters usa de toda sua acidez lírica para criticar o mundo contemporâneo, tanto nos seus aspectos políticos quanto sociais. O mundo distópico, em "Picture That", a separação forçada de pais e filhos, em "The Last Refugee", os drones como armas de guerra, em "Deja Vu", o sonho americano, em "Broken Bones", o terrorismo, em "Smell The Roses", dentre outras sacadas. É um álbum mordaz, profundo, cujas letras contém várias referências do mundo atual. Vale a pena construir este quebra-cabeça. 






Melhores Álbuns de 2017 - Menções Honrosas




Bem, a lista oficial de melhores do ano não integram coletâneas ou álbuns gravados ao vivo. Por isso, para fazer jus a dois lançamentos específicos, iremos falar de dois álbuns aqui que se não podiam ficar na lista, não deveriam igualmente ser dela excluídos.

Leo "Bud" Welch - Live at The Iridium




Como agravante, a notícia da morte de Leo Bud Welch. Aquele senhor de oitenta e cinco anos cheio de vigor, tocando ainda em shows com vinte músicas em média, não aguentou e partiu. Mas não antes de deixar registrado sua passagem por aqui, com dois discos de estúdio e um ao vivo, lançado nesse ano. Live at The Iridium mostra Welch tocando várias versões de clássicos do blues, além de suas próprias, gravadas no seu disco. Grande registro. Descanse em paz, Leo!




Chico César - Estado de Poesia (Ao Vivo)


O segundo disco que não poderia ficar de fora é o registro de Chico César, com o show especial focado no melhor disco de sua carreira, Estado de Poesia. O show e as músicas são tão belas que não poderiam ser deixadas de lado.


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Melhores Álbuns de 2017 - Parte IV


11. John Primer & Bob Corritore - Ain't Nothing You Can Do



Mais um disco da Delta Groove Music com grande colaboração do guitarrista John Primer e o gaitista Bob Corritore, que está sempre presente nos melhores discos. Além da dupla principal, as colaborações contam ainda com nomes como Henry Gray, Barrelhouse Chuck, Big Jon Atkinson, Troy Sandow, Chris James, Patrick Rynn and Brian Fahey. Puro Chicago Blues. Um dos melhores que você encontrará nos dias de hoje. 







12. North Mississippi Allstars - Prayer for Peace



Prayer for Peace é o oitavo álbum do grupo formado pelos irmãos Dickinson, que segue a veia de um blues-rock com guitarras altas, riffs poderosos e músicas potentes.






13. Steve Tracy & The Crawling Kingsnakes - I Bleed Through My Soul



Steve Tracy é um mestre na gaita. Entrecortando faixas instrumentais só de gaita, com músicas rápidas, lentas, baladas, de vários subgêneros do blues, I Bleed Through My Soul é um dos discos de blues mais completos do ano.






14. Otto - Ottomatopeia


O representante brasileiro mais bem colocado na lista desse ano foi o pernambucano Otto, lançando sempre discos de alta qualidade. Em Ottomatopeia, Otto retorna a um som mais acessível do que seu último disco e o resultado é maravilhoso. 








15. Perfume Genius - No Shape



Só porque David Bowie morreu, Arcade Fire, QOTSA lançaram discos decepcionantes não quer dizer que nada tenha se destacado do rock-indie de 2017. O disco mais contestador, provocante, intrigante e tenso foi No Shape, de Perfume Genius, banda liderada por Mike Hadreas. O terceiro disco de alta qualidade faz com que Perfume Genius se enquadre nas grandes bandas do cenário indie atual. 






16. Vin Mott - Quit the Women for the Blues


Seja utilizando o humor, o desejo sexual, a exaustão física, a raiva ou o ímpeto festeiro, "Quit The Women For the Blues" é um ótimo disco autêntico de blues. Não é qualquer um que estreia com um álbum totalmente com músicas autorais, principalmente no blues, um gênero que é tão comum ver regravações atrás de regravações. É rejuvenescedor, sem dúvida. Vale muito a pena ficar de olho nos seus próximos passos.





17. Monster Mike Welch & Mike Ledbetter - Right Place, Right Time



O mercado do blues sempre nos dá belas formas de parcerias traduzidas em ótimos álbuns. Nesse sentido, a gravadora Delta Groove Music nos serviu dois pratos maravilhosos. O primeiro é Right Place, Right Time, do guitarrista Monster Mike Welch e o experiente Mike Ledbetter, uma seleção incrível de blues clássicos no melhor estilo dos anos 50 e 60.





18. Sean Chamber - Trouble & Whiskey



Essa é uma pedida obrigatória para quem é fã de blues-rock com muita guitarra. Ótima banda, ótimas músicas e solos incríveis de guitarra.



  19. The Dirty Mojo Blues Band - Made Cents At the time


A banda The Dirty Mojo Blues Band, como sugere o nome, é quase como um grunge-blues, com um som sujo, cru e desleixado. O vocalista parece um bêbado de fim de noite que pega o microfone para cantar. Observação: nenhuma das características são defeitos. Por isso o disco figura aqui nessa lista.




20. Chico Buarque - Caravanas




Em meio à radicalização do cenário político brasileiro, um lançamento novo de uma lenda como Chico Buarque deveria fazer com que deixassem de lado a intriga e curtissem o que um grande compositor teria a oferecer, correto? Errado. O disco serviu para inflamar as polêmicas tanto com a direita, e uma canção, "Desaforo", de resposta de Chico aos ataques que recebeu em restaurantes, quanto com a esquerda, a partir de um suposto verso machista na belíssima faixa "Tua Cantiga". Mas a obra prima de Caravanas realmente é a faixa "As Caravanas" que trata do escravismo e da desigualdade social e racial no brasil contemporâneo. Algo que só um gênio poderia fazer.