quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Confira a resenha de The Cash Box Kings - Royal Mint





The Cash Box Kings é uma banda colaborativa por essência. Criada em 2001 pelo gaitista, cantor e compositor Joe Nosek, foi em 2007 que o grupo recebeu mais um membro fixo, o vocalista Oscar Wilson, que contribuiu para o salto de qualidade na sonoridade da banda. Os demais membros são flexíveis, dependendo do talento e da direção que aqueles que estão envolvidos queiram seguir. Para o novo trabalho da banda, Royal Mint, tantos talentos e experiências diferentes alcançaram uma ótima síntese do blues, resgatando elementos do Chicago blues de Muddy Waters, Jimmy Reed, principalmente, mas flertando em momentos diferentes com o Piedmont blues, country blues e Delta blues, transitando naturalmente do tradicional para o novo, e vice-versa.

Os destaques de Royal Mint são vários, começando pela própria regularidade durante todo o disco, mantendo a pegada sem cair no desinteresse, na mesmice ou com fusões sonoras confusas e desnecessárias para, a priori, alcançar um público maior. Sem dúvida, e sem desmerecer os demais, as faixas que contam com Wilson nos vocais se destacam pelo vigor que os cantores de blues normalmente tem. Depois de um início empolgante com os boogies “House Party”, de Amos Milburn, e o clássico “I’m Gonna Get My Baby”, de Jimmy Reed, Oscar Wilson capricha demais na versão de "Flood", de Muddy Waters. Na verdade, Wilson soa como uma encarnação de Waters. Um slow blues sensacional, mérito também de uma ótima banda de apoio. Mas não é somente nas regravações que The Cash Box Kings faz um grande trabalho. A faixa seguinte é a original "Build That Wall", na qual o grupo destila ironia sobre a decisão do governo Trump de construir o muro e fala umas verdades, digamos assim, incômodas. A letra diz: “Go on build that wall/ mistreat people with brown skin but most of all: you can ignore what Jesus said /you know the poor are better off dead. /come on now USA let's build that wall.”

A faixa seguinte, "Blues for Chi-Raq", em uma encarnação agora de Albert King, também aborda uma problemática atual: o aumento da violência, principalmente por armas de fogo, especificamente nos bairros em Chicago. Mais uma vez a banda faz um trabalho incrível na regravação do clássico de Robert Johnson, "Travelin' Riverside Blues". Em seguida, o grupo toca numa questão que com certeza já foi problema para muita gente nesse mundo de relações virtuais em que vivemos. "If You Got a Jealous Woman, Facebook Ain't Your Friend". O título é autoexplicativo. A parte final do disco nos reserva ainda ótimos momentos, além de mais regravações, como "Sugar Sweet" e "All Night Long", conta ainda com "I Come All The Way From Chi-Town", focado no estilo Piedmont blues de Sonny Terry e a divertida "Don't Let Life Tether You", com um dançante solo introdutório de gaita.

Contando com regravações poderosíssimas e canções originais relevantes de quem vive o tempo presente, executadas por integrantes que conhecem profundamente os diferentes estilos do blues, The Cash Box Kings reafirmam a relevância do blues para a cena musical contemporânea. De fato, é como o próprio Oscar Wilson descreveu o disco: "um retorno à era dourada do blues.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Confira o clipe-manifesto "Build That Wall" de The Cash Box Kings


A banda The Cash Box Kings lançou um novo disco, Royal Mint. Para promover o lançamento, a banda publicou no Youtube um clipe da música "Build That Wall", em que ataca as decisões políticas do governo de Donald Trump, especificamente a ideia de construir um muro para impedir a entrada de imigrantes e a falta de engajamento do governo dos Estados Unidos nos debates sobre as mudanças climáticas. No vídeo, o grupo também faz um manifesto político:

"Se você acha que racismo e a brutalidade policial contra negros não existiam 'até o presidente Obama ser eleito', então esta música é para você. (Faça um favor a você mesmo: vá ler qualquer livro de 5º ano de História da América, ou pesquise no google sobre comércio de escravos, Jim Crow, linchamentos, ...)

Se você acha que porque é branco ou tem um sobrenome 'não-étnico', você está de alguma forma mais aberto às oportunidades econômicas e direitos civis do que qualquer outro americano, então esta música é para você.

Se você acha que está tudo bem gozar, diminuir ou denegrir alguém por causa da cor da pele, do gênero, sua origem étnica, capacidade mental ou física, crenças religiosas ou preferência sexual,então esta música é para você.

Se você acha que está tudo bem agarrar uma mulher sem consentimento, ou assediar sexualmente, então está música é para você

Finalmente, se você testemunhou algum desses atos falados acima acontecer e não se sentiu disposto a falar contra eles, então está música é para você."

Abaixo segue a letra da música:

Build That Wall

WelI our faces aren't the same
and I can tell by your last name
this country means more to me than it does to you
We need to get back to that space
Where people knew their place
And when we're done with that let's go and build a wall

Build a wall go on build that wall mistreat people with brown skin but most of all:
you can ignore what Jesus said
you know the poor are better off dead.
come on now USA let's build that wall

You can grab her where you like there,
got no use for women's rights,
And if the girl complains she's probably just a dyke,
this PC thing’s a bunch of crap,
now we can mock the handicapped.
And when we're done with that we’ll go and build a wall.

Build that wall go on build that wall mistreat people with dark skin but most of all:
you can forget what Jesus said
ignore the sick they’ll soon be dead.
come on now USA let's build that wall

Take your science and your facts
you can blow them out your ass
'Cause the unexamined life is where it's at
Climate change ain't all that bad,
you know it's just a passing fad.
come on now USA let's build that wall

Build that wall go on build that wall mistreat people with black skin but most of all:
we’re gonna go and lead the fight to save the red, blue and white.




quinta-feira, 6 de julho de 2017

Resenha de Rev. Sekou - In Times Like These






                Mesmo com o movimento e a conquista dos direitos civis, a tensão racial nos Estados Unidos nunca deixou realmente de existir, mesmo depois que o primeiro presidente negro da história do país foi eleito, em 2008. Nos últimos anos há uma nova escalada nos conflitos raciais, colocada em evidência pela violência policial contra a população jovem negra, sempre as vítimas preferíveis dos policiais. O caso emblemático que estourou a onda de protestos pelo país e ligou o alerta para o movimento social negro norte-americano aconteceu em 9 de agosto de 2014, em Ferguson, depois que um jovem de 18 anos chamado Michael Brown foi baleado por um policial branco depois de um assalto a uma loja de conveniência. O assassinato de Brown desencadeou várias ondas de protestos entre novembro de 2014 e agosto de 2015, em que a população negra se uniu para a situação da população jovem negra em relação à violência policial, já que o caso em Ferguson não foi o único que um jovem morreu nessas circunstâncias de violência desproporcional empregada pelas forças policiais. Durante esses protestos em Ferguson, um pastor e ativista chamado Reverend Osagyefo Uhuru Sekou foi preso depois que se ajoelhou para rezar entre os policiais e os manifestantes. E é sobre ele que iremos falar agora, pois ele transferiu sua energia, sua fé e seu protesto na forma de blues e gospel no ótimo álbum In Times Like These, criando um dos mais impactantes álbum-manifesto do gênero.

Essa tensão recente já foi transplantada para a música em vários momentos, especialmente no que se refere ao hip-hop. Já Mavis Staple também usou sua música como o reflexo desse momento no seu ótimo disco Livin' On a High Note, de 2016. In Times Like These, de Rev. Sekou, vem para acabar com o silêncio incômodo que pairava pelos novos lançamentos no meio do blues.

O disco foi produzido por Luther e Cody Dickinson, do North Mississippi Allstars, que recebem o crédito de unir os elementos diversos em um som coeso e forte de gospel-blues-rock presente por todas as faixas do disco. Mas o grande astro mesmo é Rev. Sekou, ou melhor, a potência de sua voz que traduz toda a sua vitalidade e energia para lugar por um mundo melhor. Esse vigor pode ser percebido já nos primeiros segundos do disco, pois a faixa de abertura "Resist" tem trechos do discurso que Rev. Sekou deu nos protestos de Ferguson. No refrão, o reverendo clama com toda força "We want freedom and we want it now - Resist". Sekou ainda apela para a autodeterminação, afirmando para sempre resistir quando dizem o que você pode ou não fazer, quem você pode ou não amar, ou se você deve ou não voltar a estudar e coisas do tipo.  A ideia é resistir, seja que hora for. A banda grande e as músicas cheias de arranjos de metal bem posicionados também chamam atenção. No final tem a continuação do discurso de Rev. Sekou nos protestos: é dessa geração - que está resistindo, lutando, se colocando diante da brutaidade policial - que a história irá falar depois.

Na faixa título, com uma batida mais para o funk, Sekou continua o apelo pela mudança e a chamada para a contínua mobilização social, pois percebe que não tem nenhum político ou algum santo ou heroi que irá fazer com que suas reivindicações sejam ouvidas. É através da luta contínua que um povo conquista e/ou amplia seus direitos. Ao mesmo tempo em que Sekou situa a luta contemporânea da população negra, ele não esquece o histórico de perseguição, violência e exploração que seu povo sofreu por séculos:

"Persecuted but not forsaken
Been 400 years, and they still can't break us
Sometimes I feel like giving up, I cannot lie
Too busy working for my freedom, ain't got time to die.
In times like these, we need a miracle,
Ain't nobody gone save us, we're the ones we've been waiting for."

Na faixa seguinte, Sekou recria a faixa "Burnin' and Lootin'", de Bob Marley, direcionando a música para o campo do gospel e do blues. “Lord, I Am Running (99 ½ Won’t do)”, um blues cheio de riffs e solos de guitarra, é mais um dos vários destaques do disco. Para cantá-la, Rev. Sekou conta com a ajuda de Raina Sokolov-Gonzalez. Na letra, Rev. Sekou recria a situação de milhares de afro-americanos que tentava fugir das plantações correndo até a exaustão pela sua própria vida, ouvindo o latido dos cachorros no seu rastro. A repetição da letra funciona como se o corredor estivesse cantando para si mesmo, buscando forças para completar os 100 porque 99 e meio não seriam suficientes. “Muddy and Rough” é um blues cru e bem marcado, alternando solos de órgão e de guitarra, inclusive com o melhor solo de guitarra do disco. A improvisação e a variação do vocal de Rev. Sekou certamente é uma influência da sua vida de pregação na sua Igreja pentecostal.

A tradição familiar entre blues, gospel e soul, além de sua trajetória de vida como pastor, teólogo, poeta, documentarista, também leva os temas do gospel para a mesa. “The Devil Finds Work”. A estrutura da música é incrível. Começa com um blues arrastado, com uma guitarra pesada acompanhando a música e depois, de súbito, muda totalmente para um ritmo frenético de um spiritual. É quase como nos vermos dançando no meio da congregação, com palmas e tudo. Incrível.

O momento iluminado do disco continua com “Old Time Religion” acompanhado do órgão. “When The Spirit Says Move” é mais um gospel animado para acompanhar batendo palmas. O disco encaminha-se para o final com a balada soul “Loving You Is Killing Me” e a balada no piano “Problems”.

In Times Like These é um álbum daqueles que realmente só podem ser feitos em tempos como estes. Cheio de tensão, revolta, paixão, dor, sentimento e, acima de tudo, esperança. Ainda de quebra, Rev. Sekou nos leva a uma visita à Igreja. Aqui cabe um adendo: independente da sua religião ou se não tem religião, mesmo assim, a música nos leva a significativas experiências espirituais. Rev. Sekou, apesar de pastor de uma Igreja pentecostal, sabe muito bem disso. Álbuns assim são os que curam a alma. Estamos precisando. 


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Resenha de Hayes McMullan - Everyday Seem Like Murder Here




Quantos talentos e histórias excepcionais não são perdidos pelo mundo afora? Especialmente no blues, cuja origem é essencialmente rural, milhares de músicos sempre atuaram anonimamente nas sombras durante décadas, trabalhando durante o dia numa profissão fixa e tocando de bar em bar à noite, vagando pelos circuitos de sua cidade ou seu estado ganhando um trocado, sem nunca ter tido a chance de ter sua música ouvida por um grande público, ter seu nome reconhecido nas rodas dos entusiastas de blues, assim por diante. Por sorte, esse não é mais o caso de Hayes McMullan. Infelizmente, ele não está mais entre nós para testemunhar essa tardia mudança. Nascido em 1902, McMullan passou sua vida como sharecropper, diácono e ativista de direitos humanos. Enquanto isso, tocava guitarra e compunha algumas músicas para tocar nos bares nas suas andanças pelo Extremo Sul dos Estados Unidos. McMullan morreu totalmente desconhecido em 1986, aos 84 anos. Somente agora, em 2017, trinta anos depois de sua morte, graças a uma gravação ocorrida em 1967, podemos finalmente conhecer um relance do talento e das histórias desse bluesman. Ele foi gravado pelo colecionador musical e documentarista Gayle Dean Wardlow, que no final da década de 60 foi em busca de alguma gravação de Charlie Patton, perguntando de porta em porta. Enfim, uma dessas portas foi a de Hayes McMullan, ao que respondeu que ele simplesmente tocou com o próprio Patton, além de Willie Brown. Durante seu tempo ativo na música, McMullan recebeu uma oferta de gravação, mas recusou; “Eles me ofereceram cinco dólares por música, e você sabe que eles podiam fazer milhares com apenas uma música” – ele disse então para Wardlow. Depois disso, e com o envenenamento de seu irmão, que também era um músico de blues, McMullan abandonou o blues – a música do diabo – e entrou para a Igreja.
Enfim, o disco Everyday Seem Like Murder Here é o resultado de três sessões que McMullan gravou com Wardlow entre 1967 e 1968, quase trinta anos depois que ele tinha parado de tocar. Dessas sessões, 31 faixas estão em qualidade boa para serem usadas no disco. O resultado é um autêntico registro do Delta Blues, entrecortadas por conversações. O estilo de McMullan não mudou nada: parece que está tocando diretamente dos anos 20, 30. Alguns dos destaques ficam com “Look-A Here Woman Blues”, “Goin’ Away Mama Blues”, “Goin’ Where The Chilly Winds Don’t Blow” e “Kansas City Blues”.
Estamos diante de um registro histórico, que desenterra a memória de apenas um dos talentosos músicos de blues que infelizmente foram engolidos pela história. 

'The few old snapshots I took, the handful of tunes we recorded, and his brilliant performance of 'Hurry Sundown' captured on film are all that's left of the musical legacy of Hayes McMullan, sharecropper, deacon, and - unbeknownst to so many for so long - reluctant bluesman - disse Wardlow
 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Chris Cornell morre aos 52 anos.



Eu sei, todos já foram informados dessa notícia. Mas, mesmo atrasado, o blog não poderia deixar de registrar esse triste acontecimento. No último dia 17, perdemos o cantor e guitarrista Chris Cornell, de Temple of The Dog, Soundgarden e Audioslave. Para quem é fã de rock, especialmente o grunge, é mais uma perda de um heroi.

R.I.P Cornell!





terça-feira, 2 de maio de 2017

Confira "Don't Leave Me Here" e "All Around The World", do novo álbum colaborativo de Taj Mahal e Keb' Mo', TajMo



Como já se sabe, vem mais uma parceria de primeira por esses dias. O bluesman Taj Mahal se uniu a Keb’ Mo’ e estão lançando o álbum TajMo no próximo dia 5. Eles já disponibilizaram algumas músicas do trabalho pelos serviços de stream. Portanto, enquanto aguardamos o lançamento oficial do esperado disco de Taj Mahal em parceria com Keb’ Mo’, deixo aqui algumas das músicas que já viram a luz do dia. O primeiro é o lyric vídeo de “Don’t Leave Me Here” e o segundo é a apresentação ao vivo de “All Around The World” no The Late Show With Stephen Colbert. 







quinta-feira, 27 de abril de 2017

Confira o belíssimo clipe de "Far From The Cradle", de Hurricane Ruth


Hurricane Ruth acaba de lançar um vigoroso álbum, Ain’t Ready for The Grave, para o qual grava um clipe igualmente intenso para a mais emocionante faixa do disco. O vídeo de “Far From The Cradle” é denso, reflexivo e ainda nos faz pensar na passagem do tempo. Na belíssima letra, Ruth nos dá algumas dicas de como devemos enxergar esse movimento inexorável que não vai parar nunca: “We’re far from the cradle, but we ain’t ready for the grave”. Confira:


Confira Guy Davis & Fabrizio Poggi em ação Live Out Of The Woods


Guy Davis e Fabrizio Poggi lançaram um dos álbuns mais intensos do ano, o histórico Sonny & Brownie's Last Train, no qual se dedicam a homenagear dois grandes gênios do blues, Sonny Terry e Brownie McGhee. Confira agora dois vídeos em que os dois aparecem em ação tocando faixas do disco, "Louise, Louise" e "Walk On"





Resenha de Vin Mott - Quit The Women for the Blues



O disco de estreia de um artista tem que vir com alguns elementos que forneçam dicas sobre o que o ouvinte pode esperar. O título e a capa são aspectos importantíssimos para esse fim. É o que acontece, por exemplo, com o disco "Quit the Women for the Blues", do jovem estreante Vin Mott, de New Jersey. A capa é simples e mostra Mott em plena ação tocando gaita, enquanto o título do disco sugere que tenha muito, muito blues. E melhor, harmonica blues. Pois bem, é isso o que Vin Mott faz, inspirado pelos mestres tais como James Cotton, Little Water e pegando a tradição de Chicago blues de Muddy Waters, em cada uma das dez faixas do disco. Outra coisa que chama atenção e confere muito crédito a Mott e sua banda é que todas as dez faixas são originais e autorais.

A faixa de abertura e que dá título ao álbum foi construída sem dúvida com base em "Killing Floor", de Howlin' Wolf. Inicia o disco com grande estilo. "Make Up Your Mind" é um apelo para a garota se decidir logo. Aqui, bem como em vários outros momentos do disco, Mott mostra solos de gaita com grande desenvoltura. O humor ácido aparece em "Don't Make Me Laugh". A ótima "I'm a Filthy Man" é um dos pontos altos do disco, com Mott assumindo o papel do safadão da história.

Mas a grande estrela do álbum mesmo é "The Factory". No blues, as contradições da luta de classes aparece na maioria das vezes de forma indireta. Por ser um estilo que se desenvolveu num ambiente brutal e segregado, no qual os negros estavam sujeitos à violências por todos os lados, é natural que eles não se sentissem seguros o suficiente para escancarar tudo o que pensavam nas suas letras, exceto nos salões frequentados somente por membros do próprio grupo. Ainda assim, algumas gravações de cantores que tiveram coragem de colocar os pingos nos i's nas letras se destacaram. Por exemplo, "Take This Hammer", de Leadbelly, que serve quase como uma "dedada" para o capitão, ou, provavelmente a mais clássica, "Big Boss Man", de Jimmy Reed, alcança um momento em que ele fala na letra: "você não é tão grande, você só é alto, e isso é tudo". Big Bill Broonzy, J. B. Lenoir, Josh White e Nina Simone são alguns outros que se destacam por ter deixado essa luta de classes mais clara em algumas letras do blues. Pois bem, longe de colocar Vin Mott na mesma posição em termos de experiência de classe que os negros norte-americanos durante a praticamente toda sua história enquanto comunidade americana, mas "The Factory" sem dúvida retrata a esfera da luta de classe que foi transferida da zona rural para as fábricas. A música, um slow blues arrastado que representa a exaustão no final de um dia de trabalho, mostra uma letra que representa a realidade de muito trabalhador industrial pelo mundo afora. Típico de um morador de uma zona industrial. Representa também a indignação, a raiva por essas relações sociais de produção. Vale a pena transcrever um trecho da letra:

 I've been working / all around the clock (2x)
got stuck on the third shift / man, what a shock
I've been working / all around the clock
this living, ain't much living
I've been beaten down by the Factory.

 Gonna get me a pistol, gonna shoot the Boss (2x)
And I won't be sorry, for nobodies loss
Gonna get me a pistol, gonna shoot the Boss
This living, ain't much living
I've been beaten down by the Factory

Na verdade, em algum momento da vida, todos nós trabalhamos nessa fábrica que Vin Mott fala tão vivamente. Seja ela real ou não.



Mas como todo bom trabalhador, a vida não se resume a reclamar da exploração. Tem muita festa, namoro e diversão também. A coisa fica mais animada, inclusive sexualmente, com "Freight Train" e "Ol' Greasy Blues". Mas claro que teria que ter alguma música sobre problemas de relacionamento, com o "I Wanna Get Ruff With You". O álbum se encaminha para o final com "Livin The Blues", mas um ótimo lamento de quem realmente está vivendo o blues. "Living the blues, been misused, treated so bad". Isso é o blues. Para finalizar, uma divertida instrumental "Hott Mott's Theme", em que Mott usa pouco mais de dois minutos para se divertir com sua banda e sua gaita.


Então, seja utilizando o humor, o desejo sexual, a exaustão física, a raiva ou o ímpeto festeiro, "Quit The Women For the Blues" é um ótimo disco autêntico de blues. Não é qualquer um que estreia com um álbum totalmente com músicas autorais, principalmente no blues, um gênero que é tão comum ver regravações atrás de regravações. É rejuvenescedor, sem dúvida. Vale muito a pena ficar de olho nos seus próximos passos.


Resenha - John Primer & Bob Corritore - Ain't Nothing You Can Do!


De um lado, John Primer, um renomado guitarrista no meio do Blues que carrega a honra de ter integrado a última banda do lendário Muddy Watters, pouco antes da morte deste, em 1983. Além disso, conta com uma sequência de vigorosos discos solos, sempre fiéis ao tradicional estilo do Blues de Chicago e guarda o Blues Award de 2016, na categoria de Best Traditional Male Artist. Do outro lado, Bob Corritore, um dos grandes gaitistas da atualidade, que também é vencedor de um Blues Award, em 2011, na categoria Historical Album, com o álbum Harmonica Blues. Para juntar o talento dos dois está, mais uma vez, a gravadora Delta Groove Music, altamente influenciada pelo som puro e tradicional do Blues da cidade do vento. Em 2013 foi o disco de estreia dessa parceria, "Knockin' Around These Blues". Agora o catálogo da dupla é acrescida por "Ain't Nothing You Can Do", no qual a dupla mantém a pegada do Blues nostálgico e original que era tocado pelos clássicos décadas atrás. O disco ainda conta com a presença do pianista de Blues Barrelhouse Chuck em sete faixas, que infelizmente nos deixou no ano passado, aos 58 anos, e ainda com Henry Gary, pianista de Howlin' Wolf, aos incríveis 91 anos, tocando nas três outras faixas. O guitarrista Big Jon Atkinson, com quem Corritore lançou um disco no ano passado, "House Party At Big Jon's", também toca em três músicas.

A faixa de abertura é "Poor Man Blues", uma aclamação para ajudarmos aqueles que estão necessitando, que não tem um prato de comida. Cada música aqui parece construída para que todos os músicos disponham de momentos de mostrarem seus talentos de forma mais livre e solta. Incrível como há momentos em que a voz de John Primer parece bastante com a de Muddy Waters. Em "Elevate Me Mama", de Sonny Boy Williamson, a guitarra de Primer também canta demais, enquanto "Harmonica Boogalo" é simplesmente uma das melhores Jam de gaita que você escutará este ano.

Um dos destaques é a sensual "Big Legged Woman", que prova como existem músicas que podem ser sensuais sem ser ofensivas às mulheres. Nenhum assédio, apenas admiração. "Gambling Blues", de Magic Slim, também conta entre os destaques. É o momento da jogatina, hobby favorito dessa turma da pesada. O disco ainda conta com "May I Have a Talk With You", de Howlin' Wolf. O disco chega ao fim com "When I Leave Home", em torno de sete minutos, com tempo suficiente para guitarristas, gaitista e pianistas.

A experiência de John Primer mesclada com a técnica e o vigor de Bob Corritore, contando ainda com uma ótima banda de músicos, faz com que "Ain't Nothing You Can Do" seja um dos melhores discos de blues puro e tradicional lançados no ano.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Resenha de Eric Bibb - Migration Blues


É impossível não politizar um álbum que nos dias de hoje leve o nome de "Migration Blues". Eis o novo álbum do cantor e compositor Eric Bibb, que lança o novo disco em meio ao governo turbulento e xenófobo do novo presidente norte-americano, Donald Trump, com propostas cada vez mais mirabolantes para tratar da questão da imigração no país anglo-saxão.

O próprio Bibb não poderia deixar sua posição passar de forma indireta. Dessa forma, ele mesmo afirma que "Migration Blues" é seu álbum mais politizado até hoje: "Do jeito que eu vejo, o preconceito para com nossos irmãos e irmãs que são chamados atualmente de 'refugiados' é o problema, o medo e a ignorância são os problemas. Os refugiados não são 'problemas' - eles são seres humanos corajosos escapando de circunstâncias terríveis", diz Bibb na capa do próprio álbum. É um trabalho que as mentes facilmente suscetíveis a frases de efeito e pensamentos rasos colocariam uma etiqueta: "politicamente correto".

Eric Bibb é um cantor que já possui uma sólida carreira construída, calcada na música americana de raiz. Portanto, Bibb nos entrega mais uma mixórdia de Blues, Folk, Country, baladas, só que agora ele acrescenta esse ingrediente que permeia todo o disco, tornando-o mesmo um álbum conceitual. Esse ingrediente é o respeito à pessoa humana, principalmente àqueles que para sobreviver tem que superar obstáculos inimagináveis. Assim, ele mesmo, um afro-americano, recorre à sua própria história e à história de andanças e sofrimento de seu povo nos Estados Unidos para compreender melhor e, acima de tudo, combater as intransigências e intolerâncias do mundo contemporâneo. Afinal, como o próprio Bibb diz no seu site oficial, "Enquanto pensava na atual crise de refugiados, pensei na Grande Migração [...] Se você está olhando para um ex-parreiro, viajando de Clarksdale para Chicago em 1923, ou um órfão de Aleppo, em um barco cheio de refugiados 2016 - é Blues da migração."

Do jeito que eu vejo, o preconceito para com nossos irmãos e irmãs que são chamados atualmente de 'refugiados' é o problema, o medo e a ignorância são os problemas. Os refugiados não são 'problemas' - eles são seres humanos corajosos escapando de circunstâncias terríveis.

A própria escolha das músicas evidencia essa intenção de valorizar as pessoas, combater sentimentos de ódio e violência em torno das pessoas. Totalmente acústico, Bibb mescla clássicos do Folk, como "This Land Is Your Land", de Woody Gutrie e "Master of War", de Bob Dylan, com composições originais focadas no Country, Blues e no Gospel, como a tocante "Prayin' for the Shore", uma balada gospel sobre a crise de refugiados na Síria: "Em um velho barco vazado / Em algum lugar no mar / Tentando sair da guerra / Bem-vindo ou não, nós conseguimos pousar em breve / Oh, Senhor, rezando por terra". Já na faixa "Refugee Moan", Bibb nos acerta no coração quando se coloca na pele de um desses refugiados e canta: "Um caminho para um país pacífico / Onde o povo tem piedade de um homem sem teto".

"Delta Getaway" trata de uma migração bastante conhecida da população afro-americana: a Grande Migração para o norte na primeira metade do século passado, em que a população negra fugia do sangrento sul da Ku-Klux-Klan, do Jim Crow, para as cidades industriais do norte com a promessa de uma vida mais segura e livre. Na letra, o narrador sobe para Chicago para escapar de um linchamento. Essa vida do sul foi retratada na letra de "Blacktop": "todos os dias parece assassinato aqui", que já foi imortalizada pelo Blues do lendário  Charley Patton. Outra que trata da Grande Migração é "We Had To Move". Não são apenas os migrantes negros dos Estados Unidos ou os contemporâneos que são lembrados por Bibb. "Diego's Blues" conta a histórias dos mexicanos que migraram para substituir a mão de obra negra no Delta depois da Grande Migração.

"Migration Blues" é rico musicalmente, socialmente e politicamente. É, enfim, um grande registro de uma época confusa e tensa, que, no futuro, se constituirá num ótimo disco-manifesto dessa época.

Resenha Guy Davis & Fabrizio Poggi - Sonny & Brownie's Last Train




                Guy Davis está entre os mais renomados cantores do blues da nova geração que surgiu para dar um novo fôlego ao gênero a partir da década de 90. Cantor versátil e bastante produtivo, Guy Davis conta com um respeitável catálogo, que abrange desde clássicos recentes, como You Don’t Know My Mind, de 1998, e Butt Naked Free, de 2000, até álbuns puramente conceituais, como o interessante The Adventures of Fishy Waters, de 2012. Para o seu novo projeto, Davis se juntou com o gaitista italiano Fabrizio Poggi, que tem também uma carreira tão longa quando a de Davis, no entanto não dispõe de tanta inserção no cenário mundial. Nesse projeto colaborativo, a dupla decide homenagear aqueles que provavelmente são a dupla mais lendária de toda a história do blues: Sonny Terry (1911-1986) e Brownie McGhee (1915-1996). Os dois se completavam de tal modo, Sonny na gaita e com seus “woooh” inconfundíveis, e Brownie com sua voz profunda e inabalável e a seu dedilhado no violão.  Essa dupla fez um dos sons mais incríveis do século XX, levando o blues rural e inclusive as técnicas do blues a novos patamares. Pois bem, é para homenagear esses dois grandes cantores da história do blues que juntou Guy Davis e Fabrizio Poggi no projeto intitulado Sonny & Brownie’s Last Train: A Look Back At Brownie McGhee and Sonny Terry, lançado esse no final de março. Ambos foram profundamente influenciados pelo estilo de gaita chamado Piedmont, do qual Sonny e Brownie foram precursores.
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                Qualquer álbum que tem como intuito ser um tributo tem de enfrentar necessariamente dois dilemas: o primeiro se trata da escolha das faixas. O segundo dilema é como essas músicas vão ser executadas; se respeitando as versões originais ou reinventando-as e dando novas roupagens. Não existe uma fórmula pronta para álbuns assim, uns funcionam utilizando a primeira forma e outros funcionam melhor com a segunda abordagem. 

No primeiro quesito, Sonny & Brownie’s Last Train é impecável. Sem dúvida, alcança as músicas mais famosas tocadas por Sonny e Brownie. É impossível ouvir em qualquer lugar faixas como “Louise, Louise”, “Hooray, These Women is Killing Me”, “Walk On”, por exemplo, e não lembrar deles. Todas estão lá, tocadas de forma emocionante. A gaita de Fabrizio dá acompanhamento incessante a todas as músicas, com texturas e técnicas sensacionais. Sonny ficaria orgulhoso. Junto com as clássicas da dupla, estão lá também versões de tradicionais do blues, que Sonny e Brownie também tocaram, como o hino “Take This Hammer”, e a icônica “Midnight Special”, ambas de uma das suas maiores inspirações, Ledbelly, e “Goin’ Down Slow” e “Baby, Please Don’t Go to New Orleans”, que qualquer bluesman que se preze em algum momento de sua carreira vai tocar essas músicas. Ainda sobre espaço para um música original de Guy Davis. A faixa que dá abertura ao disco é a original e Guy, “Sonny & Brownie’s Last Train”, que dá uma narração quase mítica à história de Sonny e Brownie, inclusive cheia dos whoops característicos de suas músicas. No final dessa faixa, uma mensagem de Guy e Fabrizio para a dupla: “Goodbye Sonny, Goodbye Brownie. See you on the other side”.

Bem, no caso de Sonny & Brownie’s Last Train, ouso dizer que só dá tão certo porque Guy Davis e Fabrizio Poggi gravam essas músicas de forma primitiva, crua, e, portanto, poderosa, da mesma forma que Sonny e Brownie fizeram no seu tempo. Até porque, segundo o próprio Guy, Brownie e Terry foram dois músicos cujo trabalho nunca será superado, muito menos melhorado”. Guy  encarna o papel de Brownie, enquanto Fabrizio se encarrega de representar a gaita de Sonny, o que não é uma tarefa nada fácil. O resultado do trabalho de Fabrizio sem dúvida é um dos pontos mais fortes do disco.

Pois bem, estamos em 2017. Nada mais vai alcançar a genialidade das gravações de Sonny Terry e Brownie McGhee do que esse projeto de Guy Davis e Fabrizio Poggi. O fato de ser um tributo sincero faz com que o álbum atinja todos os seus objetivos. É um álbum honesto, empolgante, histórico e apaixonante.